| Arara Teresa, versão online. Porque, convenção por convenção, a nossa tem mais groove, tem mais piada, tem mais charme. |
![]() O Homem Vesgo de Idéias é um grande amante de pássaros - o que costuma negar com vigor. Eles o fascinam porque de todas as coisas que suspeita existirem, são as que mais se aproximam do Espírito Puro. Assim como a cor amarela, eles incendeiam sua imaginação. 10:49 | 14.8.08 E então era pra lá de meio dia. Eu não sabia exatamente o que fazer. Quero dizer. Não estou falando sobre nada urgente, nada grave. É só isso: "E então era pra lá de meio dia e eu não sabia exatamente o que fazer." As paredes quase falavam comigo e não, eu não estava de ressaca. Pensei que deveria ao menos abrir a janela. Alguma luz, algum ar novo, sabe como é. Mas preferi continuar ali, deitado. A porta se abriu, então. Platão entrou. Fiquei de olhos semicerrados. Platão estava com um ar cansado. Mas os olhos vivos, como de costume. Sentou-se numa cadeira. Fiz de conta que eu estava dormindo. Ele ficou um bom tempo ali, sentado. Apanhou uma Pepsi na bolsa. Abriu. Pensei se o "tsssss" que a lata fez, ao ser aberta, deveria ser motivo para eu acordar ou não. Decidi que não. Ei, garoto. Tou ligado que você está fingindo. Virei de lado, abri os olhos, bocejei: Você estava aí? Sim, sim, não se faça de bobo. Mexeu na longa e alva barba. Como é que você consegue andar descalço o dia todo, seu velho? Não sei. E você, como é que consegue dormir até o meio dia? Eu simplesmente consigo, respondi. Eu também, ele falou. E depois perguntou: Você conhece a história de John Updike? Não, não conheço. Pois então deixe-me te contar: John Updike costumava pescar no baixo Ground Hail Road River. O pessoal falava que ali não era um lugar muito bom para se pescar: um, por causa dos coiotes traiçoeiros e famintos e dois, por causa da longa trilha desde o alto Ground Hail Road River. Sabe como é. Não se tratava exatamente de uma trilha, era muito mais um emaranhado de mato, porque ninguém gostava de passar por ali, a não ser que se descesse pela outra margem, onde não havia mata fechada, porém lá o caminho era de pedras e precipícios e o rio era muito ruim de ser atravessado por quase toda sua extensão, porque era caudaloso deveras e mal como uma serpente acuada. Mas John tinha esse costume, o de descer até o baixo Ground Hail Road River. Peraí, eu disse. Abri a janela, fui até o armário, peguei uma caixa. Que merda é essa, ele perguntou? Viva Fidel, eu respondi. Você está maluco, garoto. Quer um? Bem, pode ser. Joguei-lhe um charuto. Fizemos o tal ritual, lambemos nossos charutos, cortamo-lhes as pontas, etc. Acendemos. Platão falou alguma coisa sobre o tempo, amanhã deve fazer sol, ou não? Depois de dar uma longa tragada e mandar a fumaça pra fora, exclamou: bom mesmo esse negócio, hã? Eu lhe perguntei se ele fumava há muito tempo. Eu não fumo, ele me respondeu. Não parece. Estou lhe dizendo, garoto, eu não fumo. Continuou: Mas como eu dizia, garoto, então John, o velhaco, ajeitava suas coisas para ir ao baixo Ground Hail Road River, a vara longa de fly-bamboo, sua linha de fio de casca de pinheiro, suas iscas de prata, sua faca de dente de crocodilo, quando sua esposa, Anne Updike, uma mulher grandona, loira, de ombros largos e pernas firmes, apareceu na porta e disse: Velho, estão roubando nossas ovelhas! O velho John largou suas coisas e caminhou, tranquilamente, até um baú debaixo da cama do seu quarto. Pegou sua espingarda, um saco de pólvora, o socador, e um punhado de balas de bronze. Socou a pólvora, as balas. Botou a espingarda no ombro. Dirigiu-se até as ovelhas. Viu dois caras no meio daquele mar de lã berrante. Empunhou a espingarda: Ôa, seus malandros. Eu tenho uma porção de balas aqui procêis. Claro que vou dar um tiro e, até recarregar, o outro vai poder correr e fugir. Mas um dos dois eu mando pra Doce Senhora, se mando. É um jogo de sorte, não é, como vai ser? Eles olharam entre si e depois para John Updike e responderam em uníssono: Senhor, nós viemos do futuro, senhor. Nós temos presentes para o senhor, senhor. É que precisamos de uma ovelha, senhor. Mas que né futuro, que né ovelha, o caralho, seus borra-botas. Eu vou é passar fogo e é já. Senhor! - eles suplicaram. O velho parou um instante, baixou a espingarda. Tirou um cachimbo de dentro de um bolso da calça. Pegou um saquinho de fumo de dentro de outro bolso. Enquanto botava o fumo no cachimbo e o acendia, foi falando: Pois vocêis sabem que ontem mesmo eu vinha caminhando ali por perto das propriedade do velho Moe e então vinha subindo um homem de bigode e então o reconheci, era meu amigo Martin, e ele vinha andando e parou e abriu uma garrafa de um uísque caseiro que ele fez e então ele me disse que ia começar a vender uísque e eu tomei e achei uma coisa pra lá de boa e ele disse que não era uísque, na verdade. E eu disse: mas como assim você quer vender um uísque que tem gosto de uísque mas que não é uísque e ele me disse que sim, que era o melhor negócio isso de vender um uísque que não era um uísque, mas que tinha gosto de uísque. John segurou o cachimbo com a boca, empunhou a velha espingarda e emendou: Agora o senhor aí vire um pouquinho para a esquerda que eu quero acertar o senhor bem de frente, porque eu não sou lá homem de atirar pelas costas. E meteu bala num dos caras, que caiu morto. O outro correu, John pensou em recarregar, desistiu. Foi até o cara baleado, ele tinha uma rosa vermelha no peito, enorme. O velho John se surpreendeu: o homem que se dissera do futuro era igual a ele, John, a cara de um era o focinho do outro. AH! Você está de brincadeira, Plat, pára com isso, eu falei. Platão ajeitou a barba, deu uma longa tragada no charuto: É, é verdade, eu estou de brincadeira. Velho Plat, você é demais, mas agora me deixe te contar, eu tenho que te dizer: ontem eu arrumei uma briga no ônibus, você não imagina. OH, VOCÊ FALA SÉRIO MESMO? - falou, me sacaneando. Ok, não precisa falar assim, Plat, é só uma história, eu só ia lhe contar desse cara que, do nada, começou a empurrar todo mundo na porra do ônibus. OH, QUE INCRÍVEL! - Platão já começava a me dar nos nervos com aqueles comentários babacas. É sério, porra. Você vem aqui, me acorda cedo... OH, CEDO? Ok, não tão cedo, mas, enfim, me acorda, conta uma bosta de uma lorota sobre um velho caipira e eu não posso nem lhe contar o que aconteceu ontem, no ônibus? Jesus! Calma, garoto, assim você vai acabar passando mal, calma. Pode me dizer o que aconteceu no ônibus, eu vou ouvir. Posso mesmo? Pode, agora pare de resmugar. Ok. Então, estou no ônibus e esse maluco entra empurrando todo mundo e as pessoas, ei, você é louco, ei, pare de me empurrar, ô, caralho, e então o engraçadinho passou por mim e me empurrou também, meteu a valise nas minhas costas e então eu me viro e lhe dou um murro no meio da cara. Juro, Plat, eu não pensei em nada, apenas dei o murro, a raiva quente vindo por dentro da minha cabeça e eu POU! No meio da cara dele. Então o verme caiu e eu, Deus, o que eu fiz? E então ele começa a se levantar no meio das pessoas e eu olho bem pra cara dele e, juro por tudo de mais sagrado, o cara é o Roberto Justus. Quem é esse? Aquele lá da televisão, Plat, aquele quem faz um espetáculo do tipo Antonio Ermírio para as massas. Oh, fez Platão botando a mão na boca. Pois é. Daí o cara continuou atravessando a multidão, a cara cheia de sangue, e empurrando as pessoas e eu: o que é que esse cara está fazendo aqui nesse ônibus, na hora do rush? E então ele saltou no ponto seguinte, ajeitou a gravata e, juro, deu tchau para as pessoas do busão! So-rrin-do, acredita? Meu Deus, que mundo é esse? Então ficamos quietos, eu e o velho Plat. Terminamos nossos charutos, ele ficou lendo a Time com o Bozo na capa, enquanto eu me levantava e ajeitava as coisas; depois fiz um café, tomamos em silêncio, fui tomar banho e, quando voltei, Plat havia se mandado.
10.8.08 Eu disse ao Homem Vesgo de Idéias quero ser sua amiga e o Homem Vesgo de Idéias pensou ela deve ser maluca. De lá pra cá bebemos até ver os outros caírem, pensamos em mudar o mundo, nos apaixonamos pela mesma mulher, trocamos confidências e decidimos que nos amávamos, embora nenhum dos dois saiba o que isso significa. A última vez que o vi será amanhã, sem querer, na Avenida São João.
5.8.08 à noite, meu nego, você nem queira saber no que se transforma o centro. tu que anda a tropeçar em devaneios, que se veste de desvarios, que borra o rosto com essa felicidade obscena e ingrata, não vá querer caminhar a esmo por aí, não vá parar ninguém porque teus fósforos acabaram. faz um esforço pra pensar em deus nessa hora fria e não encara os mendigos com olhos de pena ou de cientista social. seus olhos vão turvos por essas ruas e as luzes te parecerão tão bonitas quando o sereno chegar, quando a garoa apertar um pouco mais seu passo, quando dobrar naquela esquina e encontrar o motel barato onde você não pensará em se matar porque. veja que criança se esconde nesses olhos, nos seus gemidos que também mendigam atenção e tantas coisas que te faltam, qualquer coisa que tu sonhou enquanto a família dormia ou partilhava a mesa de jantar, sabendo que era ali que estava a verdade, que era ali, antes da novela das oito que aquilo tudo que tu planejava viver, de fato, acontecia. vai te parecer simples demais caminhar sem medo na madrugada porque as calçadas borbulham de gente e os automóveis com seus zunidos e promessas de mobilidade e a beleza que é estar ao lado de alguém enquanto há sentido, enquanto podemos colar qualquer sentido ou desculpa pra não voltar pra casa até que o dia clareie. meu homenino, tu sequer existe e me causa tanta agonia porque não sabe onde está agora, neste exato momento. não sabe que está sentado na guia, não sabe que em teu bolso há um bilhete importante, lido e relido tantas vezes, que há em você um desejo, que há uma saudade que não se resolve. tu sabe tão pouco dessas coisas e se aventura pelas ruas, flerta com os meninos que cheiram cola, pergunta às putas quanto vale uma hora, uma chupada, mas não sabes ainda que não existes, que não fazes parte disso, que estás trancado num quarto entre livros, esperando que todos se recolham pra esquentar um bocado de café e poder dançar sem pudores. não queira abrir o jornal e opinar sobre o comunismo, o preço do feijão, as revoluções fracassadas, sobre os grandes incêndios e fraudes fiscais porque você mal sabe onde está, meu menino. você mal percebe que está na fila do supermercado esperando pra ser atendido, você não sabe que está dentro do ônibus pensando em deus enquanto tem os olhos distraídos pela janela. você mal se lembra que trabalha o dia inteiro pra juntar dinheiro e festejar no final de semana a volta disso que você ainda não sabe que perdeu.
4.8.08 Por que você não morre? Naquela terça-feira eu tinha certeza de que você tinha caído de cima do terraço. Certeza! Me recordo muito bem, saímos do ensaio, eu carregava a sua guitarra porque você estava cansada. Não foi assim? Depois perguntei se você não tomaria um chope, enquanto nos encaminhávamos para o ponto de ônibus. Você me disse que estava cansada de chope - isso depois de falar novecentas e trinta e sete vezes, durante o ensaio, que a-do-ra-va o chope do 336, aquele boteco xexelento na Av. Lagoa Brunterhold -, mas aceitava tomar um vinho - que a gente teria de roubar no mercado -, no terraço do Village. Aliás, há quanto tempo mesmo temos invadido o Village? Eu me recordo claramente daquele ano, era verão, e você ia com uns amigos e vocês pulavam o portão e subiam pelas escadarias sujas e abandonadas daquele maldito elefante branco, até que você me convidou e eu fui, claro, e passei a ir pra lá sempre que você ia pra lá. Mas, então. Nós bebíamos vinho e você começou a se exibir, saltando sobre o beiral do maldito terraço e eu estava assustado, claro, mas, confesso, algo em mim queria te ver cair e não é que? Pude vislumbrar um centésimo de segundo a sua cara atônita, seu corpo indo para trás. Ah, a gravidade! Viva Newton, eu disse para mim mesmo, trezentas vezes, enquanto descia as escadas. Nunca recebi tão bem o cheiro da rua, quando saltei o portão, de dentro do prédio. Não fui conferir seu corpo, é óbvio, não gosto de sangue, você sabe. E então, abro a porta do Joan's, hoje à tarde, em busca de um café quente, e você está ali, bebendo chá com Anne, sorrindo esse seu maldito sorriso de merda.
29.7.08 Ok, ok.
21.7.08 Arara.
26.6.08 Sorvete de manga? Bonzinho. Mas nada como o de caipirinha que vendiam no Morumbi, fim dos anos 80, quando o Adamastor era presidente da Independente, mas eu nem era da Independente e nem tomava sorvete [era geladinho, na realidade] de caipirinha; é verdade, as crianças não são mais as mesmas, outro dia vi um menino aqui da rua, vejam vocês, ele tem uns 14 anos e ficou rico, o moleque! Montou uma barraquinha de limonada - qualquer semelhança com Denis, o pimentinha, é mera coincidência - e passou a vender tanta, tanta limonada, que acabou com os limões da redondeza, com todos os limões, é sério isso, gente. O que vem depois é que ele foi no bairro vizinho comprar limão e foi confundido com o Riquinho - e nem loiro o moleque era, mas, vai saber. Por causa disso, pegou três anos de cadeia, porque Riquinho era procurado pela Receita Federal por Contravenção & Contrabando. No xadrez ficou truta dos cadeeiros e virou gerente de uma boca. Conclusão: além de rico, ainda faz a alegria da galera aqui, agora que voltou pro bairro. Mas Suzaninha, que era namoradinha dele, fugiu com o Beto pra Bahia e por causa disso, o dono da boca ficou puto e mandou todo mundo ficar em luto. Ou vocês acham que gosto de andar vestido de preto? Gótico porra nenhuma, eu simplesmente não sou o Mano Brown. 17:43 |25.2.08 "Desejar é a coisa mais simples e humana que há. Por que, então, para nós são inconfessáveis precisamente nossos desejos, por que nos é tão difícil trazê-los à palavra? Tão difícil que acabamos mantendo-nos encondidos, e construímos para eles, em algum lugar em nós, uma cripta, onde permanecem embalsamados, à espera.
27.1.08 Canção de ninar
|
|
|||||||||||||||||