Arara Teresa, versão online.
Porque, convenção por convenção, a nossa tem mais groove, tem mais piada, tem mais charme.
29.5.09

Mireille e a megalópole
ou Porque Arara Teresa não dará certo

Por Yane Santiago
Orientador: Michael Le Trenfier
Trecho de dissertação de Doutorado (que Daniela Landin deveria ter escrito, mas não o fez).

Jean Mireille já falara, certa vez, sobre a amizade. O conceito trata da independência do que está entre dois pontos - para citar uma canção de Bill Callahan, there's no truth in you, there's no truth in me, the truth is between - sendo que estes não são dois pontos, que, aliás, não são nem mesmo dois; imagine qualquer coisa como infinitos carrosséis girando em alta velocidade com pessoas que deveriam estar lá - e que, de alguma maneira, estão - conectadas por linhas de números infinitos, mas todas finitas, movimentando-se sem que as próprias pessoas ligadas sequer possam imaginar que existem tais linhas se entrecruzando. Agora esqueça tudo isso - mas nem tanto -, porque tal pensamento seria deveras profundo e o que estamos tentando pensar aqui é exatamente o oposto: pensemos o superficial.

Não há nada mais superficial do que as ruas de São Paulo, onde tudo se desmancha depressa. Elas se encontram repletas de trabalhadores informais: os camelôs, os traficantes, as prostitutas, os músicos de rua, os estudantes; não é preciso fazer menção à marginalidade destas figuras que se deslocam entre a invisibilidade e a visibilidade: de fato, são foras-da-lei e, no entanto, nunca estiveram mais alinhadas ao que, considero eu, a vanguarda de um movimento que se dispersa mundo afora, preenchendo nosso imaginário: somos agora todos de fato livres - e entenda o conceito de liberdade aqui pelo viés do sonho infantil; todo o sorvete do mundo; o tesão e o dinheiro; a civilização que Freud contou; o Não e o sonho de um longo carro penetrando as estradas à velocidade da luz: não se havia pensado ainda em qualquer coisa outra, na possibilidade do outro. Enfim, o que almejo com essa tenebrosa descrição de paisagem é tentar falar do contrário dela, movimento já presente, vazando pelos poros dos homens ao Sol do meio dia vendendo bugigangas: sim, o corpo pede alimento, saco vazio não para em pé, mas, ouso perguntar aos leitores se, por acaso, já, em alguma ocasião, procuraram tentar observar a movimentação daquelas figuras - melhor, do que se encontra entre elas -; é extremamente reacionário pensar que esse modelo não guarda nada do perigo de um Eu a procura de sua Mãe ou de qualquer outra coisa que se possa sugar - isso soaria também como esquecer o concretismo da Escola Berzeniana - , no entanto, continuo com a ousadia de tentar imaginar e perguntar: será que?

Imagino como se dá o movimento entre o que Mireille chamou de "nós": movimento disperso, lépido, mais desviante do que opositor; nunca consegui entender o motivo de Mireille se negar a estabelecer qualquer diálogo com a idéia do Tao, água sempre a procura do lugares mais baixos, melhor, água a procura de nada, apenas envolvendo ou sendo envolvida - em um conto de Pedro Miguel encontramos essa relação com a água, a necessidade de ser água para conseguir descer uma corredeira, assim como acontece a Sal Paradise em On the Road: é preciso ser a floresta para atravessá-la, do contrário, esta se torna insuportável, incomensurável; e surge, então, outra variável: alternância de velocidades: as linhas se dispersam ora depressa, ora de um susto só; não cabe aqueles envolvidos ou envolventes - e quem é realmente quem se torna impossível saber - determinar quando se iniciam e terminam ou quanto duram - duram? -, tampouco como ocorrem - aí está: a independência das linhas. É chegado, assim, o momento no qual devo mencionar o perigo de se pensar A Eternidade, O Todo e A Maneira de se estabelecer tais linhas - tarefa que cumprirei superficialmente -: músculos que se atrofiam, corpos empenados sem nenhuma flexibilidade; o contrário disto é, talvez, flutuar em um mundo difícil de servir como apoio, escorregadio, incerto, perigoso e saudável.

23:42 |
25.2.09

De verdade ela gosta desse gato, por tê-lo visto, conhecido assim doze anos seguidos, segurado e acariciado, levando sua comida de manhã antes que levantassem, tirando seus carrapatos entre duas unhas como entre humanos não fazemos mais, erguendo-o do chão para trzê-lo à altura de seu peito enquanto ele, torcido, cabeça presa, patas traseiras esticadas, se sacode, seu pelo e seu odor quente característicos dos gatos que cheiramos em seguida, o toque plástico e arredondado da parte de baixo das patas em trevo, e os olhos verde grama, verde pistache, verde alface sem pálpebra móvel, esse gato, deitado de lado não pode cair, farejando preciso tudo o que na Criação, eis o que por uma vez a Criação quer dizer e a preposição em é um grande conjunto, esse gato que vai embora quando nos aproximamos, que corre quando avançamos, que se achata como um carpete achatando seu fígado talvez para passar sob uma porta ou que se revira em pleno vôo, seu grito: ele mia, se pendura pelas garras, retráteis, nos troncos para subir neles ou não, as gengivas róseas, o peso que vai ganhando, avançando em sua circunferência alguns centrímetros.

[Natalie Quintane]

23:25 |
15.2.09

12:55 |

12:55 |
30.1.09

Estava tudo ali, o bule, o coador o filtro café açúcar colher água fervente, mas tudo era tão confuso, tanto, tantas coisas, e Georgette ao meu lado, eu tentando puxar conversa, você já andou pela América? América? Isso, do Sul, América do Sul, ela concentrada em ajeitar a mesa, minha mãe passando de um lado ao outro, carregando um bolo - ou pães? Bolo e pães. E o café pronto, isso tudo depois dela mesma, Georgette Fadel, ter me ajudado a terminar de fazer o café e eu pensando comigo mesmo, por que nem o café eu consegui? Atabalhoado. Energúmeno. E o café era apenas uma xícara, e bebi todo ele - oh, idiota, bebeu todo o café, por quê, por quê? - e logo me coloquei a fazer outro tanto, envergonhadíssimo, desculpe, desculpe, e Georgette a contar coisas, rindo, e eu estupidamente me botei a pensar, ela é demais mesmo, sabe exatamente o que fazer para nos agradar sem saber que era eu aquele que queria saber exatamente o que fazer para agradar a ela, ao mundo.

Yane Santiago, depois da fama, arrecadando algumas migalhas de sucesso nos cantos escusos do show business, depois de vender seu segundo milhão de discos, o contrato com o Diabo já vencendo e ele, Yane Santiago, novamente na miséria. Mas tudo há de mudar, quando ele finalmente se encontrar com Dulcinéia, oh, doce Dulcinéia, o sucesso sorrirá para mim novamente e eu poderei voltar a nadar em champanhe francesa e novamente poderei comer escargô com sorvete de chocolate e novamente todas as meninas olharão para mim enquanto eu novamente passear com o meu Cadillac conversível azul royal, eu nunca mais passerei fome e, oh, Dulcinéia, será que você pode me embalar e sussurrar aquela nossa canção? Por favor? Me ame, pleeeeease...

00:46 |
22.12.08

17:08 |



he shot me down

16:59 |
19.12.08

13:21 |



oh, yeah.

13:11 |



filosofia a marteladas

10:17 |
arquivo
companheiros
as capas